Memória e Tradição: A Trajetória de Gentil Ferreira Lima e o Legado do Sítio Poço Escuro
A história da Serra de Baturité é feita de famílias pioneiras e de terras que moldaram a economia da região.
No centro dessa narrativa destaca-se Gentil Ferreira Lima, nascido em 1880 e falecido em 1966 de morte natural na comunidade de Botija, em Guaramiranga (CE). Oriundo da antiga dinastia do Sítio Poço Escuro, Gentil descendia de uma das famílias pioneiras da região de Guaramiranga.
Ele era neto dos fundadores do Sítio Poço Escuro: o Coronel Antônio Sabino Ferreira Lima e sua esposa, Francisca Sabino de Lima. Gentil era filho de Timóteo Sabino Ferreira Lima e Petronília Cândida de Lima.
O Destino do Sítio Poço Escuro
O Sítio Poço Escuro constituiu, durante muitos anos, uma das mais tradicionais propriedades rurais da serra. Entretanto, após o falecimento de seus fundadores, o patrimônio familiar entrou em processo de fragmentação. Os herdeiros dispersaram-se, as terras foram gradativamente alienadas e a antiga casa-grande desapareceu, restando atualmente apenas vestígios de suas fundações em pedra.
Grande parte da propriedade acabou sendo adquirida por André Epifânio Ferreira Lima, seu primo e proprietário do Sítio Pau do Alho, localizado no então distrito de Pacoti. Gentil Ferreira Lima permaneceu como proprietário de uma parcela das antigas terras do Sítio Poço Escuro, que passou a ser conhecida como Sítio Ypiranga. Além disso, durante praticamente toda a sua vida, exerceu a função de gerente do Sítio Guanabara, outra gleba originada do parcelamento da antiga propriedade. Essa área havia sido vendida pelos herdeiros de André Epifânio Ferreira Lima ao Coronel Francisco Alves Linhares, permanecendo posteriormente sob a administração de sua filha, Maria Antonieta Linhares Teixeira.
Laços de Família e Alianças Patrimoniais
Na vida familiar, Gentil Ferreira Lima uniu-se em matrimônio com duas irmãs, ambas suas primas. Elas eram filhas de José Paulino Ferreira de Lima e de Maria Angélica Alves Bezerra. Seu primeiro casamento foi com Francisca Alves Lima, que faleceu em decorrência de complicações durante o parto de um filho do casal. Posteriormente, contraiu novas núpcias com a irmã da primeira esposa, Etevilna Alves Lima. Essa era uma prática relativamente comum entre famílias da época, especialmente quando havia o objetivo de preservar os vínculos familiares e assegurar o cuidado dos filhos.
A família das esposas de Gentil possuía igualmente raízes profundas na região. Seu sogro, José Paulino Ferreira de Lima, era filho de Antônio Felippe Maia, natural da região do Jaguaribe e residente no Sítio Pilar, em Baturité. José Paulino foi quem adquiriu de André Epifânio Ferreira Lima parte das terras do Sítio Botija e, posteriormente, as destinou ao filho que havia se casado com Maria Angélica Alves Bezerra (filha de José Alves Bezerra e Josefa da Conceição Bezerra, também proprietários no Sítio Botija). Essas alianças matrimoniais fortaleciam a continuidade patrimonial entre importantes famílias da serra.
De sua segunda núpcia, Gentil Ferreira Lima teve os seguintes filhos: Luiz Walter Ferreira Lima; Maria Dolores Ferreira Lima. (casada com o Dr. Ubirajara); Irmã Maria Tereza; Maria Wanda Ferreira Lima; Maria Ivanira Ferreira Lima; Professora Checa (Francisca Ferreira Lima), que se tornou uma grande educadora.
Atuação Pública e Legado Político
Enquanto Gentil teve sua atuação focada como agricultor e administrador rural, sua descendência seguiu caminhos de grande relevância pública. O filho do seu primeiro casamento, José Gentil Ferreira Lima, exerceu relevante participação na vida política, sendo vereador pelo então distrito de Pernambuquinho na Câmara Municipal de Pacoti.
Gentil também era avô do engenheiro civil Til Ferreira Lima, que também foi vereador por Guaramiranga. Til ganhou grande reconhecimento regional por coordenar as obras de asfaltamento da tradicional Ladeira da Pendanga (CE-253), por meio do antigo DERT, uma importante via de acesso à Serra de Baturité.
Um Retrato da Transformação Regional
A trajetória de Gentil Ferreira Lima sintetiza a transformação fundiária ocorrida na Serra de Baturité ao longo do século XX. O desaparecimento do antigo Sítio Poço Escuro como grande unidade agrícola cafeeira, sua divisão entre diversos proprietários e as sucessivas alianças familiares revelam um processo comum na história regional.
É o retrato de uma época em que as antigas fazendas deram lugar a novas propriedades, preservando, contudo, os laços de parentesco que marcaram a formação social e econômica de Baturité, Guaramiranga e Pacoti.